“Se mudarmos a educação rápido, o Brasil muda rápido”

Luiz Roberto Liza Curi
Presidente da Câmara de Educação Superior - CNE

 

Ao ministrar a conferência Novas Diretrizes Curriculares para os Cursos de Saúde na 52ª Reunião da Abeno, em Juiz de Fora (MG), o dr. Luiz Roberto Liza Curi, presidente da Câmara de Educação Superior e do Conselho Nacional de Educação, questionou a relevância de uma diretriz e da estrutura curricular e o que elas expressam em relação à hierarquia que representam para direcionar a educação superior. Ele ressaltou também o fato de que a partir da LDB e a criação do Conselho Nacional de Educação se iniciou a obrigatoriedade de avaliações regulatórias permanentes nas IESs, além da instalação das Diretrizes Curriculares Nacionais - antes da LDB era o currículo mínimo, bem como as tipificações da organização acadêmica da IESs em faculdades isoladas, centros universitários e universidades.

Crescimento de 98% de matrículas - “Naquele momento foram criadas comissões de área que se responsabilizaram pelo apoio à elaboração das diretrizes. As universidades expandem e concentram matrículas devido às exigências (4 mestrados e 2 doutorados) e autonomia para abertura de cursos.

O crescimento foi cerca de 98% nas matrículas no ensino superior entre 2004 e 2015. Houve aumento no número de matrículas na região nordeste (20%) e sudeste (46%)”, aponta e faz um alerta: 3.662 municípios no país (66%) ainda não possuem oferta de Educação Superior, nem mesmo polos de Ensino a Distância (EAD).

O conferencista apontou o processo de expansão de cursos de Medicina por meio dos atos regulatórios, enfatizando a necessidade de haver a demanda espontânea desde que haja qualidade. “Tem de haver como demanda induzida em locais que necessitam da expansão do ensino superior. O currículo mínimo era mínimo e as Diretrizes abrem novas possibilidades para a IES na construção do seu projeto político pedagógico”, alerta.

Oferta deve ser mais bem direcionada - Liza Curi apresentou também os dados das principais matrículas por curso no país, nesta ordem: Direito, Administração, Pedagogia, Ciências Contábeis, Engenharia Civil, Enfermagem, Psicologia e Engenharia de Produção. “Esta oferta precisa estar mais direcionada, esta expansão está relacionada à maior facilidade de abertura em função de menor necessidade para oferta. A indução deve prover oportunidades e não excluir espontaneidades. É preciso que a expansão de oferta faça sentido ao país e não às instituições particulares.” Ele assinala uma desarticulação profunda entre demanda e oferta, o que também revela um vazio das políticas públicas, e apresentou a evolução dos indicadores de trajetória dos estudantes no curso de ingresso no Brasil - de 2010 a 2014 - e as taxas de permanência, de conclusão e de desistência.

Problema é a evasão do estudante - Ao comparar esta trajetória entre a rede privada e a rede federal, mostrou que estas taxas são similares entre as privadas e públicas. “O grande problema é, portanto, a evasão dos estudantes e o problema não é financeiro, pois 43% na rede pública evadiram em detrimento de 52,7% na rede privada. “Um problema muito sério pois tanto para o setor público como para o privado significa gasto de recursos públicos e privados.” Atribui a causa da evasão ao currículo: “O Inep é um grande centro de serviços e informações, as associações de ensino têm um papel fundamental na questão da evasão.”

“O currículo não pode ser uma forma burocrática de falência do ensino superior e discutir diretrizes curriculares sem a sua efetiva implantação não tem sentido. É preciso ter ciência do nosso protagonismo no provimento para a Nação e não para interesses próprios. Precisa ser uma política pública, efetiva, qualificada. A questão curricular é crucial, as instituições precisam ser atores governantes da arena”, disse, acrescentando: “O currículo não é um conjunto de conteúdos, é uma política institucional, é preciso diálogo com os pares na produção de conhecimento, flexibilidade (que não é deixar de ter aula às sextas feiras), é promover uma agenda de aprendizado. Atualizar a agenda de conhecimento e de conteúdos, ter interdisciplinaridade, política curricular institucional que garanta estes elementos diferenciais”.

Para Liza Curi, o currículo tem que conduzir os egressos, acompanhá-los. É preciso produzir conhecimento, produzir aprendizados. O currículo precisa contribuir para a profissão, não é um elenco de disciplinas, tempos ou percentuais, é dinâmico, uma forma dinâmica de aproximar ensino, pesquisa e extensão, é essencial que possua uma agenda de formação. Não é apenas avaliação de desempenho do estudante, mas do aprendizado, tem que expressar o desenvolvimento do curso. Prática real/ estágio precisa ser efetivamente avaliada. “Se mudarmos a educação rápido, o Brasil muda rápido.

 

DCNs de Odontologia

“Quanto às DCNs de Odontologia, o mais importante é que o público continua participando destas discussões, o CNE é mobilizador da política, mas precisam de apoio do público da Abeno, novos atores podem entrar na discussão. O CNE faz este papel de estimular, discutindo texto consensual entre Abeno, coordenadores de curso, dirigentes, comitê conjunto entre CNE e Abeno. Novos instrumentos serão produzidos em função das novas DCNs. Todos os atores precisam participar deste processo.” Lisa Cores

 

 

20-07-2017